Boletín de la Sociedad Zoológica del Uruguay, 2026
Vol. 35(1): e35.1.3
ISSN 2393-6940
https://journal.szu.org.uy
DOI: https://doi.org/10.26462/35.1.3
RESUMO
Este estudo descreve a fenologia reprodutiva de javalis
Sus scrofa (Linnaeus, 1758) em um ambiente de Floresta
Ombrófila Mista com Araucária, localizado no Sul do
Brasil, na unidade de conservação Floresta Nacional de
São Francisco de Paula (FLONA), RS. O monitoramento
das populações de S. scrofa foi realizado por meio de sete
armadilhas fotográficas, instaladas em quatro áreas
utilizadas pela equipe de controle de fauna exótica para o
manejo populacional na unidade de conservação, as
quais continham comedouros automáticos com oferta de
alimentação. Os dados obtidos revelaram um padrão
sazonal unimodal de reprodução, ocorrendo entre maio e
dezembro. As cópulas foram inferidas entre abril e maio,
com fêmeas prenhes registradas entre maio e setembro e
o recrutamento de filhotes ocorrendo entre julho e
dezembro. Além disso, os resultados sugerem que a
reprodução de Sus scrofa pode coincidir temporalmente
com a safra do pinhão (sementes de Araucaria
angustifolia), que ocorre entre abril e junho. Este estudo
fornece informações relevantes sobre o ciclo reprodutivo
desta espécie invasora em um ecossistema importante do
Sul do Brasil, contribuindo para o desenvolvimento de
estratégias de manejo e controle populacional na Floresta
Ombrófila Mista com Araucária, bem como para estudos
comparativos em outros biomas e fitofisionomias.
Palavras chave: araucária, javali, pinhão,
reprodução.
ABSTRACT
Reproductive phenology of Sus scrofa in mixed
rainforest, in southern Brazil. This study describes the
reproductive phenology of wild boars Sus scrofa
(Linnaeus, 1758) in a Mixed Ombrophilous Forest with
Araucaria environment, located in southern Brazil, within
the conservation unit of the São Francisco de Paula
National Forest (FLONA), RS. Monitoring of S. scrofa
populations was conducted using seven camera traps,
one installed in each of the four areas used by the exotic
fauna control team for population management within the
conservation unit, which contained automatic feeders
providing supplemental food. The data obtained revealed
a unimodal seasonal reproductive pattern occurring
between May and December. Copulations were inferred
between April and May, pregnant females were recorded
between May and September, and offspring recruitment
occurred between July and December. Furthermore, the
results suggest that reproduction of S. scrofa may
temporally coincide with the “pinhão” harvest (Araucaria
angustifolia seeds), which takes place between April and
June. This study provides relevant information on the
reproductive cycle of this invasive species in an important
ecosystem of southern Brazil, contributing to the
development of population management and control
strategies in the Mixed Ombrophilous Forest with
Araucaria, as well as to comparative studies in other
biomes and phytophysiognomies.
Keywords: araucaria, reproduction, seed, wild boar.
INTRODUÇÃO
O javali (Sus scrofa Linnaeus, 1758) é uma espécie
originária da Europa, Ásia e norte da África que, ao
longo da história, foi intencionalmente introduzida em
diversos ambientes ao redor do mundo para fins
comerciais (consumo e caça). Sua ocorrência atual se
estende por todos os continentes, incluindo ilhas no
Atlântico e no Pacífico, exceto a Antártida. É
considerada uma das 100 piores espécies invasoras
Bol. Soc. Zool. Uruguay (2ª época). 2026. ISSN 2393-6940Vol. 35(1): e35.1.3
FENOLOGIA REPRODUTIVA DE Sus scrofa EM UMA ÁREA DE FLORESTA OMBRÓFILA MISTA,
NO SUL DO BRASIL
1,2 2,3,* 2
Rafael L. Balestrin , Arthur S. de Oliveira , Martin Schossler
1 Fieldwork, Consultoria Ambiental Ltda, Curitiba – PR, Brasil.
2 Bushmaster Controle de Espécies Exóticas Inc. Porto Alegre – RS, Brasil.
3 Orbis Consultoria Ambiental, Osório – RS, Brasil.
Autor correspondente: rlbalestrin@gmail.com
Data de recebimento: 31 de julho de 2025
Data de aceitação: 10 de abril de 2026
.
*
2
BALESTRIN et al.
do mundo devido aos impactos sobre a biodiversidade
e sobre as atividades humanas (Lowe, Browne &
Boudjelas, 2000).
No Brasil, existem várias hipóteses não
excludentes para a introdução da espécie. Entre elas,
Frankenberg von (2005) cita que javalis podem ter
invadido naturalmente o território brasileiro,
atravessando os campos fronteiriços entre o Brasil e o
Uruguai, país onde originalmente foram introduzidos
para consumo e caça. Deberdt & Scherer (2007), citam
que varas de javalis foram importadas da Europa para
o Brasil objetivando a criação comercial e devendo-se
considerar a possibilidade de fuga acidental desses
animais e/ou a soltura intencional após o desinteresse
ou receio de sanções legais, uma vez que no final da
década de 90 a importação e abertura de novos
criadouros foram proibidos no território brasileiro.
Após décadas de registros de Sus scrofa em vida
selvagem no território brasileiro, atualmente a espécie
pode ser encontrada em praticamente todos os biomas
(Rosa, Medeiros & Hegel, 2020), com predominância
de registros nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste,
causando importantes implicações econômicas,
sanitárias e ambientais amplamente publicadas
(Barrios-García & Ballari 2012; Boughton & Boughton
2014; Fredriksson-Ahomaa 2019; Maciel et al., 2018;
Olea-popelka et al., 2017; Varela et al., 2020; Zhu et al.,
2019).
Considerando a vasta extensão do território
brasileiro, que abrange uma ampla diversidade de
biomas e distintas fitofisionomias, é esperado que Sus
scrofa apresente diferentes dinâmicas de ocupação de
habitat, potencialmente influenciadas pela
disponibilidade sazonal de recursos nessa diversidade
ambiental. Segundo Mayer e Brisbin (2009), javalis
são reconhecidos por sua notável plasticidade
ecológica, caracterizada pela adoção de diversas
estratégias de uso de habitat, o que lhes permite
explorar eficazmente uma diversidade abrangente de
recursos disponíveis em uma determinada área,
fitofisionomia ou bioma. Associado a isso, Fonseca et
al (2004), demonstraram que a espécie Sus scrofa
pode apresentar sazonalidade reprodutiva variável
entre populações e contextos ambientais, com picos
de atividade reprodutiva associados a determinadas
estações, mas também com possibilidade de
reprodução ampliada em cenários de elevada
disponibilidade alimentar. A condição corporal das
fêmeas, diretamente relacionada à disponibilidade e
qualidade dos recursos naturais, também pode
influenciar a probabilidade de concepção, o tamanho
da ninhada e a intensidade reprodutiva, indicando que
anos de maior oferta de alimento tendem a resultar em
maior proporção de fêmeas gestantes (Servanty et al.,
2009). Brogi et al., 2022, sugerem que fatores
ambientais e disponibilidade trófica modulam a
sincronização fenológica da reprodução, podendo
antecipar ou concentrar a estação reprodutiva em
períodos de maior abundância de recursos. Desta
forma, o estudo da dinâmica populacional de javalis
em fitofisionomias específicas, considerando suas
particularidades ambientais e possíveis influências na
dinâmica ocupacional da espécie Sus scrofa nestes
ambientes, pode representar uma importante
ferramenta para determinar práticas de controle e
monitoramento desta espécie exótica invasora.
Neste contexto, o Planalto das Araucárias integra o
bioma Mata Atlântica e abrange os estados do Rio
Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná (Boldrini,
2009). Nessa região, a Floresta com araucária,
também conhecida como Floresta Ombrófila Mista, é
caracterizada pela presença da araucária (Araucaria
angustifolia (Bertol.) Kuntze, 1898), espécie que
produz o pinhão, uma semente de alto valor energético
amplamente consumida por diversas espécies da
fauna nativa, incluindo javalis. A disponibilidade
sazonal desse recurso pode representar um
importante fator ecológico potencialmente associado à
dinâmica populacional e reprodutiva de Sus scrofa
nesse ambiente. Assim, o presente estudo teve como
objetivo caracterizar o período reprodutivo e o padrão
de recrutamento de filhotes de Sus scrofa em uma área
de Floresta Ombrófila Mista no sul do Brasil, utilizando
registros obtidos por armadilhas fotográficas
instaladas na Floresta Nacional de São Francisco de
Paula (FLONA). Adicionalmente, buscamos descrever
a distribuição temporal das diferentes classes etárias
registradas e discutir a possível relação entre a
ocorrência de eventos reprodutivos e a disponibilidade
sazonal de recursos alimentares característicos desse
ecossistema.
MATERIAL E MÉTODOS
Área de estudo
A Floresta Nacional de São Francisco de Paula
(FLONA) é uma Unidade de Conservação de Uso
Sustentável situada no município de São Francisco de
Paula, no estado do Rio Grande do Sul, Brasil (29°
25'22“S, 50° 23'11“W). Esta área abrange terras altas
variando entre 647 m e 940 m de altitude e está sob a
influência de um clima do tipo subtropical Cfb, de
natureza temperada, conforme a classificação
climática de W. Köppen. A FLONA está inserida no
bioma Mata Atlântica e é composta principalmente por
vegetação de Floresta Ombrófila Mista, com presença
de matas de araucárias (Araucaria angustifolia). Além
disso, a FLONA apresenta áreas de banhados e
ambientes formados por florestas plantadas com
espécies exóticas como Pinus sp., Eucalyptus sp.,
Cryptomeria japonica e a espécie nativa Araucaria
angustifolia. A área total da FLONA é de
aproximadamente 1.615,6 hectares, dos quais 55%
correspondem a formações naturais de Floresta
Ombrófila Mista, sendo o restante composto por áreas
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3Reproductive phenology of Sus scrofa
de silvicultura, banhados e áreas edificadas.
Na FLONA foram constituídas quatro áreas de
alimentação (Fig. 1) para o controle da espécie exótica
S . s c r o f a , s e g u n d o a u t o r i z a ç ã o S E I
02127.001053/2022-61.
Duas áreas (Área 01 e Área 02) foram
estabelecidas em ambientes de transição entre a
silvicultura de Pinus sp. e ambientes naturais de
Floresta Ombrófila Mista com araucária. Ambas as
áreas estavam localizadas em partes baixas e úmidas
que intercalavam coxilhas cultivadas com Pinus sp.
Nestas partes baixas, é comum a presença de
samambaias e de alagadiços abastecidos,
principalmente pelo escoamento das chuvas (Fig. 2).
As demais áreas (Área 03 e Área 04) foram
implementadas em ambientes de transição entre a
silvicultura de Eucalyptus sp. e a Floresta Ombrófila
Mista com araucária, em porções mais altas e secas do
ambiente (Fig. 3). Vale destacar que a Área 04 também
faz fronteira com ambientes campestres naturais de
propriedades vizinhas à FLONA.
Delineamento amostral e esforço de
monitoramento
O delineamento baseado em monitoramento em
pontos fixos com comedouros automáticos deve ser
considerado na interpretação dos resultados. Embora
a suplementação alimentar possa influenciar a
frequência de registros, a agregação local de
indivíduos e potencialmente a condição corporal das
fêmeas, o método foi aplicado de forma padronizada
ao longo de todo o período amostral, permitindo
comparações internas consistentes. Associado a isso,
a distribuição de alimento, por meio dos alimentadores
eletrônicos, da marca Moultrie Feeders, LLC permitiu
regular a quantidade e hora da dispersão de alimento,
que correspondeu a milho em grãos, os quais foram
dispersos uma vez ao dia, no final da tarde, durante
seis segundos, fornecendo aproximadamente 453g de
milho por ativação, segundo informações do
fabricante. A quantidade de alimento disperso foi
mínima, a fim de atrair javalis, mas não influenciar nas
características corporais dos animais e nem
representar uma oferta suficiente na manutenção das
varas que acessaram essas áreas. Ainda assim,
reconhece-se que os padrões observados refletem
contextos com oferta artificial de recursos, devendo
sua extrapolação para áreas sem suplementação ser
realizada com cautela.
A coleta de dados foi realizada por meio de sete
armadilhas fotográficas ativadas por movimento,
utilizadas pela equipe de controle de fauna exótica
para o monitoramento das áreas de alimentação.
Desta forma, três áreas estiveram monitoradas por
duas câmeras (Áreas 01, 03 e 04) e uma área por
apenas uma câmera (Área 02), formando quatro
conjuntos de áreas monitoradas. Cada área de
alimentação possuía um alimentador automático, com
capacidade para 30L, abastecido com milho em grãos.
As armadilhas fotográficas utilizadas eram da marca
Bushnell (Trophy Can HD), configuradas para disparo
único, com intervalo de operação de 30 segundos. O
período de operação das armadilhas fotográficas
abrangeu o intervalo entre o mês de junho do ano de
2022 a fevereiro do ano de 2024, totalizando 21 meses
de monitoramento. As armadilhas permaneceram
fotografando continuamente, sendo revisadas em
média a cada 15 dias de operação. O esforço de
monitoramento, desempenhado pelas câmeras, foi
calculado mensalmente considerando a primeira e
última foto ou vídeo realizadas no mês em questão.
Ressalta-se que o esforço amostral não foi
padronizado entre as áreas devido a falhas técnicas,
problemas de fornecimento de energia e furtos de
equipamentos, podendo influenciar a frequência de
registros obtidos. Na Tab. 1 é possível observar o
esforço amostral (em horas) obtido pelas câmeras em
cada área amostral ao longo de todo período de
monitoramento.
Classificação etária e reprodutiva
Para determinar o período reprodutivo de Sus
scrofa, foram observadas as classificações etárias e
sexuais dos indivíduos registrados por meio das
armadilhas fotográficas. A classificação etária dos
filhotes foi realizada por meio de características
habituais de coloração e tamanho que remetem à
forma selvagem da espécie S. scrofa, ou seja,
coloração marrom com faixas longitudinais mais claras
(Fig. 4A); embora também possam ocorrer filhotes
com pelagem branca ou negra (Fig. 4B). Assim,
considerou-se filhote quando, pelo menos um dos
membros do alfeire apresentava a coloração típica
desta etapa da vida. Quando indivíduos não tão
pequenos e com coloração correspondente à dos
adultos, eram observados, sem nenhum indivíduo com
a coloração usual de filhotes no mesmo alfeire, foram
considerados como leitões e não mais como filhotes.
Essa distinção foi relevante para determinar o período
de recrutamento dos filhotes e estimar o período
reprodutivo com base no tempo médio de gestação
das fêmeas. Também foi contabilizado o número de
adultos acompanhando os filhotes na tentativa de
caracterizar a estrutura social das varas.
Por meio dos registros realizados por armadilha
fotográfica, também foram registradas fêmeas que
apresentavam notório estado gestacional, estas
fêmeas apresentavam abdome visivelmente
distendido, glândulas mamárias aumentadas e
condição corporal distinta da habitualmente observada
em fêmeas que frequentavam as áreas de
alimentação, sendo classificadas como possivelmente
prenhas com base nestes critérios visuais (Fig. 5).
De forma complementar, também foram utilizados
dados referentes a ocorrência de fêmeas com
embriões, abatidas pela equipe de controladores de
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BALESTRIN et al. 4
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Fig. 1. Mapa das respectivas áreas de amostragem (círculos brancos). A linha vermelha representa os limites da Floresta Ombrófila Mista em
São Francisco de Paula, RS.