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BALESTRIN et al.
do mundo devido aos impactos sobre a biodiversidade
e sobre as atividades humanas (Lowe, Browne &
Boudjelas, 2000).
No Brasil, existem várias hipóteses não
excludentes para a introdução da espécie. Entre elas,
Frankenberg von (2005) cita que javalis podem ter
invadido naturalmente o território brasileiro,
atravessando os campos fronteiriços entre o Brasil e o
Uruguai, país onde originalmente foram introduzidos
para consumo e caça. Deberdt & Scherer (2007), citam
que varas de javalis foram importadas da Europa para
o Brasil objetivando a criação comercial e devendo-se
considerar a possibilidade de fuga acidental desses
animais e/ou a soltura intencional após o desinteresse
ou receio de sanções legais, uma vez que no final da
década de 90 a importação e abertura de novos
criadouros foram proibidos no território brasileiro.
Após décadas de registros de Sus scrofa em vida
selvagem no território brasileiro, atualmente a espécie
pode ser encontrada em praticamente todos os biomas
(Rosa, Medeiros & Hegel, 2020), com predominância
de registros nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste,
causando importantes implicações econômicas,
sanitárias e ambientais amplamente publicadas
(Barrios-García & Ballari 2012; Boughton & Boughton
2014; Fredriksson-Ahomaa 2019; Maciel et al., 2018;
Olea-popelka et al., 2017; Varela et al., 2020; Zhu et al.,
2019).
Considerando a vasta extensão do território
brasileiro, que abrange uma ampla diversidade de
biomas e distintas fitofisionomias, é esperado que Sus
scrofa apresente diferentes dinâmicas de ocupação de
habitat, potencialmente influenciadas pela
disponibilidade sazonal de recursos nessa diversidade
ambiental. Segundo Mayer e Brisbin (2009), javalis
são reconhecidos por sua notável plasticidade
ecológica, caracterizada pela adoção de diversas
estratégias de uso de habitat, o que lhes permite
explorar eficazmente uma diversidade abrangente de
recursos disponíveis em uma determinada área,
fitofisionomia ou bioma. Associado a isso, Fonseca et
al (2004), demonstraram que a espécie Sus scrofa
pode apresentar sazonalidade reprodutiva variável
entre populações e contextos ambientais, com picos
de atividade reprodutiva associados a determinadas
estações, mas também com possibilidade de
reprodução ampliada em cenários de elevada
disponibilidade alimentar. A condição corporal das
fêmeas, diretamente relacionada à disponibilidade e
qualidade dos recursos naturais, também pode
influenciar a probabilidade de concepção, o tamanho
da ninhada e a intensidade reprodutiva, indicando que
anos de maior oferta de alimento tendem a resultar em
maior proporção de fêmeas gestantes (Servanty et al.,
2009). Brogi et al., 2022, sugerem que fatores
ambientais e disponibilidade trófica modulam a
sincronização fenológica da reprodução, podendo
antecipar ou concentrar a estação reprodutiva em
períodos de maior abundância de recursos. Desta
forma, o estudo da dinâmica populacional de javalis
em fitofisionomias específicas, considerando suas
particularidades ambientais e possíveis influências na
dinâmica ocupacional da espécie Sus scrofa nestes
ambientes, pode representar uma importante
ferramenta para determinar práticas de controle e
monitoramento desta espécie exótica invasora.
Neste contexto, o Planalto das Araucárias integra o
bioma Mata Atlântica e abrange os estados do Rio
Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná (Boldrini,
2009). Nessa região, a Floresta com araucária,
também conhecida como Floresta Ombrófila Mista, é
caracterizada pela presença da araucária (Araucaria
angustifolia (Bertol.) Kuntze, 1898), espécie que
produz o pinhão, uma semente de alto valor energético
amplamente consumida por diversas espécies da
fauna nativa, incluindo javalis. A disponibilidade
sazonal desse recurso pode representar um
importante fator ecológico potencialmente associado à
dinâmica populacional e reprodutiva de Sus scrofa
nesse ambiente. Assim, o presente estudo teve como
objetivo caracterizar o período reprodutivo e o padrão
de recrutamento de filhotes de Sus scrofa em uma área
de Floresta Ombrófila Mista no sul do Brasil, utilizando
registros obtidos por armadilhas fotográficas
instaladas na Floresta Nacional de São Francisco de
Paula (FLONA). Adicionalmente, buscamos descrever
a distribuição temporal das diferentes classes etárias
registradas e discutir a possível relação entre a
ocorrência de eventos reprodutivos e a disponibilidade
sazonal de recursos alimentares característicos desse
ecossistema.
MATERIAL E MÉTODOS
Área de estudo
A Floresta Nacional de São Francisco de Paula
(FLONA) é uma Unidade de Conservação de Uso
Sustentável situada no município de São Francisco de
Paula, no estado do Rio Grande do Sul, Brasil (29°
25'22“S, 50° 23'11“W). Esta área abrange terras altas
variando entre 647 m e 940 m de altitude e está sob a
influência de um clima do tipo subtropical Cfb, de
natureza temperada, conforme a classificação
climática de W. Köppen. A FLONA está inserida no
bioma Mata Atlântica e é composta principalmente por
vegetação de Floresta Ombrófila Mista, com presença
de matas de araucárias (Araucaria angustifolia). Além
disso, a FLONA apresenta áreas de banhados e
ambientes formados por florestas plantadas com
espécies exóticas como Pinus sp., Eucalyptus sp.,
Cryptomeria japonica e a espécie nativa Araucaria
angustifolia. A área total da FLONA é de
aproximadamente 1.615,6 hectares, dos quais 55%
correspondem a formações naturais de Floresta
Ombrófila Mista, sendo o restante composto por áreas
Bol. Soc. Zool. Uruguay (2ª época). 2026. ISSN 2393-6940Vol. 35(1): e35.1.3